sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A flor do espinho

Nas paredes frias do cinza azulejado
Ranhuras aradas pelas patas brutais do homem
Sulcos verticais, veias transparentes
Pendurados no teto os ilustres vagalumes
Asas de um colibri selvagem
Casulos feito um móbile
Entra o vento, nasce em flor.
Ah bruta flor!















sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Dos Cruces

Sentada numa cadeira que não balança
Minhas mãos tecem cruzes


Que formam a mesma flor
repetidas vezes, flores e cruzes

O olhar cansado e obstinado
Em busca do tom e das lembranças

Minha velhice descoberta
Antes mesmo que eu use as lentes

Engrandecendo as minúsculas cruzes
O cravo do esquecimento no meu colo

Embalo as flores e as cruzes
Na cantiga antiga da mulher de agora

A linha na vida
A vida na flor
A flor em cruz.






segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Fragmentos



Eu sei, de vez em quando vem as guerras porque não somos somente paz. Mas escute, amor: a guerra é lá fora, contra quem quiser pisar na sua cabeça. Não, eu não quero. Eu sou fraca, o amor é fraco, o amor já se entregou. E se isso não tiver graça, eis a hora de partir, pois não é amor o que você procura. Eu só posso lhe oferecer a experiência assustadora e aterrorizante de ser amado.


E se existe alguma guerra é essa: meus dedos em sua pele, delicadamente, arrancando da superfície o que nem você gostaria de ver em si mesmo. Pois está vendo esses dedos? São eles que fazem carinho quando o mundo nos dá vontade de encolher num canto do sofá e dormir chorando... O Outro não pode amar aquilo que Eu não legitimo, não pode! Essa é a guerra! O risco de descobrir-se sem vestes, fraco, humano como qualquer outro, e ainda assim amado. É tão exposto quanto nascer, e não saber como será o mundo; assim como, nu e frágil, não saber o peso daqueles olhos em você

Hoje eu quis inventar uma outra palavra, não pena. Que em pena a perspectiva é vertical. Em pena, sou eu olhando para baixo, e eu uma outra que traduzisse assim: eu olhando para dentro. Então eu assisto àquilo, olhando um cadáver ainda morno e digo sim, sim, ele tinha dentes muito bonitos, sim. Mas não fui eu que inventei a morte, não fui, a culpa não é minha. Eles dizem: alimente-se bem, beba pouco, não fume. Não fui eu que inventei isso de a morte entrar pela boca. É uma lei natural. Tudo o que é só corpo, pele ou matéria está se desgastando: o guarda-roupa, a Brigitte Bardot, tudo.


Então, o que se salva senão o intangível, senão os gestos que construímos em silêncio, de olhos fechados? E de olhos fechados, sonhei que você voltava dessa guerra e entrava embaixo de minhas cobertas: era o lugar mais quente depois que nada disso importava mais. Eu te abraçava bem forte, sem nada perguntar, porque o modo como você aquecia os meus pés friorentos era mais bonito do que tudo, tudo.


Escrito por Rita Apoena

















quinta-feira, 18 de agosto de 2011


Meus versos nascem da saliva que brota docemente de minha língua

e morrem feito compotas nas prateleiras do meu pensamento.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Luz



Vamos começar a limpar isso aqui...


Uma vassoura de palha macia acariciando o chão de terra batida dos meus quintais.

Folhas displicentemente depositadas nos riachos cantantes da minha mente,
navegando calmamente pelos veios dos meus pensamentos.

O cabelo do sol delicadamente iluminando os contornos e revelando a forma de tudo.

A expressão do vento balançando a saia, flores e pólens.

Pássaros carregando as sementes nos olhos vidrados da esperança.

Estrelas de mãos dadas formando anéis indissolúveis na lua.

Sono sereno, paz anunciada.

O que não presta, não cria raiz em mim.