domingo, 6 de fevereiro de 2011

O sistema só-lar.

No absoluto do seu silêncio, a mulher consegue alcançar as estrelas que queimam no espaço. 
Compadecida com tamanha solidão, oferece seus sonhos solidariamente às labaredas em despedida póstuma.
Aduba o céu e colhe o brilho diário e fulgaz da sua existência.
Deita os cabelos no esteio e devora o sal da sede que nasce de dores indizíveis.
Enrijece o corpo, simulando a postura padrão da morte.
Segura a mão num gesto de misericórdia íntima.
Fecham-se os olhos em busca de uma paz prometida.
No escuro particular, escalda as mortalhas e planta uma bandeira discreta.
Tremulando sob os suspiros, contempla a vastidão das casas habitadas por homens que jogam jogos e mulheres que jogam comida nas panelas.
Crianças apressadas, levantam poeira alada nas trilhas que cortam a floresta.
Trens carregam pedras e estátuas infantis brotam no meio da mata gargalhando ventos.
Animais empuleiram-se nos galhos dos braços inquietos e febris.
Rios sinuosos cortam as pedras do seio em botão de uma delas.
Nasce uma mulher...
Goteja uma água-viva em teu peito, marcando para sempre a certeza de que nasceu só, para inventar histórias que nunca existiram. 
Arranha o ceú e geme feito a estrela que morre de brilhar em silêncio.

sábado, 13 de novembro de 2010

Carta a um exilado (I)



Hoje sei que a saudade pode acabar. Só comigo...
Cherei as roupas usadas que ainda estavam na mala.
Abracei cada peça no corredor do quarto minúsculo.
Tropecei na cama e me entreguei ao teu cheiro, corpo e alma.
Preparei a comida. Adocei o café.
Lavei as roupas. Limpei a casa.
Ouvi a música esperando nossa dança.
Meu vestido abraça apertado meu corpo, na espera e falta que sente de ti.
Resignados, aguardamos a contradança.
Os sentidos dançam conforme o ritmo de tua ausência.
O amor calça os sapatos.
A música quer começar.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O estanho da louça.



Sua caneca lascou, amor.
Bem na borda, onde eu levo à boca.
É a demora,  o nunca.
Também tacaram fogo no meu campo de trigo capim.
Está tudo tão cinza, cinzas...
É a pressa, que devora.
Eu sei, é tão pouco. 
Mas era teu, só teu.
E tudo acaba.
Amor.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Drummondiana


Num suspiro tímido, guardo nos quintais de mim as histórias que não vivenciei por circunstâncias além dos limites de meus territórios secretos. A sensação é que tudo aqui é mais bonito e faz todo o sentido.

Nos campos que me habitam, colhemos flores e depositamos em formigueiros. Observamos em silêncio a procissão à caminho do esconderijo nas sarças de capim. Feito mágica, elas desaparecem e nossos olhos se encontram, sorriem.

Levantamo-nos em direção às borboletas sobrevoando as nuvens que podem ser tocadas com os pés. Caminhamos decalços e já não me importo com o vento que esvoaça meu vestido e cílios, carregando-nos pelos cabelos em direção ao infinito.

No varal, penduramos todo tipo de adereço até descobrir onde está a outra ponta. Quando nos damos conta, percorremos um caminho que nunca existiu e que nos leva ao pôr de sol no meio dos seios de uma montanha.

Adormecidos, os dedos se entrelaçam e os corpos se unificam. Respiramos os mesmos sonhos e enfeitamos nosso encontro com botões delicados de não-te-esqueças-de-mim.

Nosso jardim, nosso jardim... que de tanto plantar, já não me interessa sair daqui. E tudo que me brota ainda é vivo e belo. E tudo que colho é apenas o que acredito. Acato o que o Diabo me mandou e agradeço o que Deus me reservou; amar e calar.

Me deixe aqui e estarei em paz.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Hoje não tem poesia.

As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam

Porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões

Os corações pegam fogo e depois não há nada que os apague

se a combustão os persegue, as labaredas e as brasas são

O alimento, o veneno, o pão, o vinho seco, a recordação

Dos tempos idos de comunhão, sonhos vividos de conviver

As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam

Porque o amor e o ódio se irmanam na geleira das paixões

Os corações viram gelo e, depois, não há nada que os degele

Se ha neve cobrindo a pele, vai esfriando por dentro o ser

Não há mais forma de se aquecer, não há mais tempo de se esquentar

Não há mais nada pra se fazer, senão chorar sob o cobertor

As aparências enganam, aos que gelam e aos que inflamam

Porque o fogo e o gelo se irmanam no outono das paixões

Os corações cortam lenha e, depois, se preparam pra outro inverno

Mas o verão que os unira, ainda, vive e transpira ali

Nos corpos juntos na lareira, na reticente primavera

No insistente perfume de alguma coisa chamada amor.

( Sérgio Natureza e Tunai )