sábado, 26 de março de 2011

Da boca, vogal.


Quando não tiver mais nada – nem chão, nem escada, escudo ou espada – o seu coração acordará.


Quando estiver com tudo: lã, cetim, veludo, espada e escudo... Sua consciência adormecerá.
E acordará no mesmo lugar, do ar até o arterial; no mesmo lar, no mesmo quintal, da alma ao corpo material.


Quando não se tem mais nada, não se perde nada. Escudo ou espada: pode ser o que se for, livre do temor.


Quando se acabou com tudo – espada e escudo, forma e conteúdo – já então agora dá para dar amor. Amor dará, e receberá do ar, pulmão; da lágrima, sal. Amor dará, e receberá, da luz, visão do templo espiral.


Quando se acabou com tudo (espada e escudo, forma e conteúdo), já então agora dá para dar amor. Amor dará, e receberá do braço, mão; da boca, vogal. Amor dará, e receberá da morte o seu guia natal.


(Adeus, dor...)


[NANDO REIS]

sábado, 19 de março de 2011

O mundo morre.


O mundo morre, quando acordamos e lamentamos por isso.
O mundo morre, quando na beirada da cama existem muitos sapatos e um chão de mentira.
O mundo morre, quando nos abandonamos e carregamos na bolsa a maquiagem diária.
O mundo morre, quando as crianças são jogadas na lata de lixo junto aos dejetos.
O mundo morre, quando presenciamos a brutalidade e fingimos que "não é comigo".
O mundo morre, quando nossos filhos aprendem a morte do mundo.
O mundo morre, quando as mãos hesitam em tirar o cabelo do rosto dela.
O mundo morre, onde pessoas escutam Meditação e continuam bebendo e gargalhando a sua desgraça.
O mundo morre, quando vestimos a desfaçatez e penduramos no cabide o que somos em carne viva.
O mundo morre, quando abrimos um livro e não encontramos a mancha da flor seca na página preferida.
O mundo morre, quando fechamos os olhos sem qualquer coisa terna para lembrar.
O mundo morre, quando sonhamos com o pesadelo que é a vida.
Incessantemente o mundo morre.

terça-feira, 15 de março de 2011

Entre Abraços.

[]Quando escrevo, repito o que já vivi antes. 
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. 
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo 
vivendo no rio São Francisco. 
Gostaria de ser um crocodilo porque amo grandes rios, 
pois são profundos como a alma de um homem. 
Na superfície são muitos vivazes e claros, 
mas nas profundezas são tranquilos e escuros 
como o sofrimento dos homens.[]

João Guimarães Rosa



[]As procelárias

De minha velha torre eu acompanho cada ano as aves que fogem dos climas atrozes

Lentas aves cuja multidão de asas batendo deixa a tempestade boiar sobre os verdes oceanos dos trópicos
E cujos corpos negros ocultam dias e dias o sol e à noite aprofundam a treva no frêmito profundo da sua passagem.
Da minha velha torre com que eu já me confundi ao Tempo e de quem sou a longínqua luz que os timoneiros vêem palpitando
E cujas escadas suspensas subi muita vez pensando atingir o céu descoberto em cima
Da minha velha torre onde já vi o vácuo dos tufões e das calmarias repousarem na sua sucessão eterna
Eu sigo cada inverno essas estranhas peregrinas fartas em cujas garras pendentes parecem se suspender catástrofes
Eu, a quem foi dada a suprema liberdade da visão incessante dos horizontes nas auroras e nas tardes
A quem foi dada a significação suprema das correntes invisíveis e da inconstância dos ventos e a quem
Foi dada a palavra luminosa só ela capaz de dirigir o movimento dos portos do mundo
Eu durante eras nada compreendi dessas dolorosas fugitivas mas em cuja imutável rotina sentia a fatalidade de alguma missão a cumprir...
"Às vezes sonhava que elas eram escravas de Deus prisioneiras de um misterioso plano cujo movimento fizesse girar a terra
Outras, que eram anjos tombados, para quem não bastasse o inferno e cujo castigo fosse a eterna imagem proibida do céu no espelho das águas
E sobre que elas de quando em quando mergulhassem, não para se alimentarem de peixes, mas para conseguirem as nuvens e as estrelas
E outras, que eram almas vagabundas, irmandade pródiga dos campos santos, sequiosas de um espaço em renovamento, que sei mais...
Mas agora, talvez por tê-las visto tão de perto que cheguei a lhes sentir a rigidez da carne
Talvez porque ouvi um grito partir da sua massa escura e julguei reconhecer cheio de horror a própria voz que trago na vida
Eu sei quem elas são e por isso canto quando lhes sinto o palpitar das asas que me chega mais cedo porque a minha velha torre é alta e tudo sabe.
Da minha velha torre eu direi, nessa linguagem que aprendi no silêncio e na emoção das fontes da vida
Nessa linguagem que se foi dada a muito poucos é porque só deve ser escutada por pouquíssimos
Eu direi, com a tristeza de me saber o mais fraco e o mais desolado e de me sentir gritando fora de mim por esse mundo contra o que nada posso:
Elas são os Destinos dos homens – sempre que um homem clama há um homem que escuta
E é como se em todo o clamor houvesse um apelo de paz e em toda a escuta uma necessidade de amargura
Nessa ordem de almas caminhando das dilacerações para os grandes vazios íntimos
As procelárias são como as imagens dos Destinos trazendo e fugindo as tempestades mas trazendo e fugindo
E deixando em cada ser o que tirou de outros e arribando continuamente nos ciclos...

É por isso que eu acompanho cada ano as procelárias que voltam dos climas atrozes
Na esperança de que ouça um dia o mesmo grito que ouvi e em que julguei reconhecer minha fala
Para que eu possa mostrar ao meu miserável pássaro, satélite da minha passada descrença e impostura
A grande procelária branca que vive agora em mim e cujas asas enormes se estendem por todos os horizontes
E que olhando o céu noturno canta com voz de rouxinol baladas perdidas de comoção e de ternura
Os belos seios embebidos no mar que se alimenta deles e que cresce,
cresce, cresce, pelo meu sexo, pelo meu peito, pelos meus olhos…[]


Vinícius de Moraes




O Camafeu.



Fiquei me perguntado por dias o porquê de não escrever aqui algo que partisse de mim...

Eu que não escrevo. Defino meu "desaguamento" no olhar que deposito nas coisas, pessoas e sentimentos. Distorções ciprestres e prosaicas que escoam por entre palavras e pensamentos varados no peso disso. Um lenitivo-lisérgico-antitérmico para meus devaneios. Quanto mais me pergunto, mais vontade tenho de abraçar Guimarães, Caio's, Viniciu's, Clarice's e toda visão palpável aos meus olhos cegos de palavras. 

Gosto de boleros, Dolore's e Maysa's. Aprecio o bourbon na mesa e pontas de cigarros espalhadas pelo cinzeiro, sapatos de salto alto tombando a elegância das almas trôpegas e meias-fina desfiadas até a dobra dos joelhos com um pingo de esmalte incolor. Esses cuidados infames que denunciam o abandono a que estamos condenados.

Percorro vielas obscuras levantando o olhar num ângulo ascendente - as vezes vejo meus olhos virados do avesso para enxergar algo mais bonito. A minha recusa tem sido a única salvação e maldição. Vai que bate um vento? Desses que me envesgam e entortam os caminhos? O que farei com tanta lucidez? De tanto pensar meus olhos se tornaram dois delatores explícitos. Escondo minhas mãos no bolso, sigo os tortuosos caminhos me enganando que algo segue protegido. 

Meu destino cabe dentro do camafeu que carrego pregado no peito. Tem uma foto, um sorriso e algumas histórias. As vezes me dá coceira, e me lembro que preciso fazer cócegas e brincar de feliz. Quando vou dormir, aperto-o junto ao peito e deixo que ouça o que diz o coração. Quando fecho os olhos, respiro suave, até que adormeça junto a mim o que carrego e protejo com as mãos agarradas a ele, feito uma criança assustada no escuro das palavras que assombram sua inocência. De tanto suar nas mãos, o camafeu molha-se e sobrevive à sede do deserto dos dias.

Minhas pequenas e instantâneas palavras não podem salvar minha frustrada tentativa de olhar o que cabe em minhas mãos.